Amor IncondicionalPor que você fica sempre por último na sua própria lista
Isha Judd

A solidão não mede quantas pessoas estão por perto. Mede quanto de você chega a essa mesa. Por isso uma casa cheia pode te deixar tão sozinha quanto uma vazia.
Você pode estar numa mesa cheia, conversando e rindo, e sentir que nada daquilo chega dentro. Isso acontece porque companhia e conexão não são a mesma coisa, e só uma das duas se vê de fora. As pessoas se contam. A conexão não aparece na foto.
E a conexão começa num lugar que costuma estar desatendido, que é o que você tem com você mesma. Quando o dia inteiro vai embora atendendo o que os outros precisam, como te veem e o que você deveria dizer, quase não sobra um momento em que você esteja com você. Aí as pessoas podem estar muito perto e ainda assim não alcançar.
Existe uma razão concreta pela qual um encontro pode te deixar mais sozinha do que você chegou, e é incômoda de olhar. “Modificamos e mudamos e escondemos e fingimos e mentimos para poder nos sentir amados”, diz Isha. Se à mesa chega uma versão editada de você, o que receber carinho vai ser essa versão, e por isso não te alcança: não era para você.
Embaixo há algo mais, que é o que faz com que nenhuma quantidade de gente baste. “Quando nos sentimos vazios, nada nunca é suficiente: estamos sempre perseguindo mais e mais e mais, porque estamos tentando preencher esse vazio”, aponta Isha. E em outra palestra ela diz de forma ainda mais curta: “É como se estivéssemos sempre reclamando ao externo pedindo amor. Por quê? Porque não o temos dentro.” Esse vazio não se preenche com mais gente em volta porque não se abriu ali.
Nos ensinaram uma ideia que trabalha contra: “Fomos treinados a dizer que temos que encontrar a nossa outra metade.” Se você acredita que te falta uma metade, cada vínculo chega com uma tarefa impossível em cima, e nenhum a cumpre. Isha corrige com uma frase simples: “A minha felicidade não pode depender de outra pessoa.”
E existe um círculo que se fecha sozinho. Por medo de ficar sem ninguém você sustenta vínculos que já não te fazem bem: “Sempre vamos ter desculpas e razões para continuar na mesma situação, porque temos medo de estar sozinhos.” Ao mesmo tempo, esse mesmo medo faz você se mostrar menos, pedir menos, se expor menos. “Você está criando aquilo de que tem medo, porque você se isola. É isso que cria a rejeição: o isolamento”, diz Isha. O medo da solidão acaba fabricando solidão.
Sinais de que a solidão não é por falta de gente
Você sai de um encontro com a sensação de não ter dito nada seu.
Você sustenta vínculos que já não te fazem bem para não ficar sem ninguém.
Você olha o celular procurando algo, sem saber bem o quê.
Você se mostra da maneira que acha que vai agradar, e depois não reconhece bem essa versão.
Você pensa que a falta vai se resolver no dia em que alguém aparecer.
Uma cena que talvez você reconheça
Domingo em família, a casa cheia, todo mundo falando. Você pergunta, escuta, serve, responde com a resposta curta quando te perguntam como você está. Você vai embora contente e duas quadras depois aparece um vazio que não tem nome, e que parece injusto depois de uma tarde assim.
Não é ingratidão. É que você passou a tarde inteira atendendo e nunca chegou a estar. Ninguém pode encontrar alguém que não apareceu. O domingo não falhou: faltou você no domingo.
A prática: voltar a habitar a sua própria companhia
Você para alguns minutos e volta para você. Não precisa de postura especial nem de silêncio em volta.
Você leva a atenção da cabeça ao coração, que é essa profundidade sua que não depende de quem está do lado.
Quando aparecer o impulso de preencher o silêncio, talvez você possa ficar mais um pouco. Isha aponta que há uma profundidade que só se experimenta em silêncio.
Na próxima conversa, você pode dizer uma coisa sua de verdade, mesmo que pequena. O que se recebe é o que se mostra.
Se você perceber que sustenta um vínculo por medo de ficar sem ninguém, olhe para isso sem decidir nada ainda. Ver já muda o lugar de onde você escolhe.
Você nunca pode ser abandonada, a menos que esteja se abandonando.
FAQ
Porque o parceiro resolve a companhia e não necessariamente a conexão, e o que falta costuma ser a segunda. Você pode compartilhar a casa, a rotina e a cama, e mesmo assim não estar mostrando o que de verdade acontece com você, por costume ou por medo de incomodar. Isha descreve esse mecanismo sem enfeitar: escondemos e fingimos para nos sentir amados. Quando isso acontece, o carinho que chega é para a versão que você mostrou, não para você, e por isso não basta. Há outra parte: se você espera que a outra pessoa complete algo que você sente vazio, nenhuma vai conseguir. Esse lugar volta a ser habitado de dentro, e a partir dali o vínculo começa a chegar diferente.

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