Amor IncondicionalPor que você se sente sozinha mesmo cercada de gente
Isha Judd

Não é falta de tempo. É que você aprendeu a tirar o seu valor do que dá, e nessa conta o seu nome nunca entra. O que cresce ali depois tem outro nome.
Você se deixa para o final mesmo tendo o tempo disponível, e essa é a parte que não fecha. Se fosse falta de tempo, um dia tranquilo bastaria para resolver. Mas chega o dia tranquilo e você o usa para adiantar algo de outra pessoa. O problema não está na agenda: está em de onde você está tirando o seu valor.
Isha diz isso numa frase que incomoda um pouco: “Nos sentimos seguros no que fazemos, não no que somos.” Se o seu lugar no mundo se sustenta sobre o que você resolve para os outros, parar não parece descanso. Parece perder o terreno que custou a conquistar.
Dar é a coisa mais fácil que existe quando sempre funcionou. “É fácil dar, é fácil salvar outras pessoas”, diz Isha, e diz isso dela mesma antes de qualquer um: “Eu era uma mulher poderosa e bem-sucedida, mas continuava tendo esses comportamentos, colocando todo mundo antes de mim.” Ela conta até para onde isso a levava: “Cuidando dos meus amigos em vez de cuidar de mim, escolhendo parceiros que eu tinha que salvar, que não acrescentavam absolutamente nada à minha vida.”
Por isso não basta se propor a ter mais disciplina. Enquanto o valor vier do que você resolve, cada tempo que você tomar para si vai competir contra a única fonte de segurança que você conhece. Isha aponta onde está a saída: “Você tem que encontrar um lugar interno que se torne tão importante para você que você não vá mais se abandonar.” Não é um espaço na agenda. É um lugar próprio que deixa de ser negociável.
Existe uma consequência que quase ninguém antecipa e que aparece sempre. “Se você se abandona, você vai se ressentir”, diz Isha. Você não se ressente da vida em geral: você se ressente das pessoas concretas por quem se postergou, que costumam ser as que você mais ama. E ainda por cima chega a culpa por estar sentindo isso, então também não dá para nomear.
Quando você dá a partir dali, deixa de fora a outra metade do vínculo. Isha conta do lugar de quem não sabia receber: “Estou roubando deles a oportunidade de me amar. Estou roubando deles a oportunidade de me dar. E isso também é dar. Receber é dar.” Reservar um tempo para você não tira nada de ninguém. O que tira algo de todos é que quem distribui esteja vazia e já começando a fazer as contas.
Sinais de que você se deixou para o final
Você sabe de cor o que cada um precisa na sua casa e hesita quando te perguntam o que você quer.
Quando finalmente sobra um tempo, você o usa para adiantar algo de outra pessoa.
Você adia consultas, exames ou coisas simples da sua saúde.
Te incomoda ser cuidada e você devolve o gesto na hora, para não ficar em dívida.
Aparecem raivas desproporcionais por coisas pequenas, e depois você se sente mal por tê-las sentido.
Uma cena que talvez você reconheça
Um plano cai e a tarde fica livre. Você pensa em usá-la para algo seu e em menos de cinco minutos já está resolvendo uma burocracia que não era urgente, respondendo mensagens ou cozinhando para adiantar a semana. Quando você percebe, a tarde acabou.
Não foi falta de tempo nem distração. Foi que fazer algo por outra pessoa parece produtivo e fazer algo por você parece injustificado. Essa é a parte que dá para olhar, e é a que de verdade decide como você usa cada tempo que aparece.
A prática: que o seu nome volte para a lista
Você para alguns minutos mesmo com o dia seguindo. Alguns minutos bastam, sem postura específica e sem precisar que a casa esteja em silêncio.
Você leva a atenção da cabeça ao coração, que é o lugar próprio que não depende do que você resolveu hoje.
Quando aparecer a culpa, talvez você possa ficar mesmo assim: a culpa costuma avisar que você está mudando um costume, não que esteja fazendo algo errado.
Você escolhe um momento fixo e pequeno, e o sustenta. O que muda não é quanto tempo seja, é que exista.
Quando alguém te oferecer algo, você pode dizer sim sem devolver o gesto no ato. Receber também é uma forma de dar.
Todo aquele amor que eu dei, eu vou dar a mim.
FAQ
Porque o que decide não é a agenda, é de onde você tira o seu valor. Se você aprendeu que vale pelo que resolve, cada tempo para você compete contra a sua única fonte de segurança, e por isso perde sempre. Isha resume assim: “Nos sentimos seguros no que fazemos, não no que somos.” Aí se explica algo que de outra forma não fecha: aparece uma tarde livre e em cinco minutos você já a está usando para algo de outra pessoa. Não é distração nem desorganização. É que fazer pelo outro parece justificado e fazer por você não. Enquanto isso não mudar, somar tempo livre não basta.

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