Unificação Isha Judd
O luto não volta porque você está retrocedendo. Volta porque o que vocês compartilhavam estava em muitos lugares ao mesmo tempo, e cada um avisa por conta própria.
La Muerte · 6 min de leitura

Por que o luto vem em ondas

O luto não volta porque você está retrocedendo. Volta porque o que vocês compartilhavam estava em muitos lugares ao mesmo tempo, e cada um avisa por conta própria.

Isha Judd

O luto vem em ondas porque a pessoa que você perdeu não ocupava um lugar da sua vida: ocupava muitos ao mesmo tempo. A hora de ligar, o lado dela na mesa, o caminho que vocês faziam juntos, o nome que aparecia primeiro quando acontecia algo bom. Cada um desses lugares avisa por conta própria, e nenhum avisa quando chega a sua vez.

Por isso você pode passar uma semana inteira de pé e desabar numa terça-feira qualquer fazendo compras. Você não está retrocedendo. Está encontrando outro dos lugares onde essa pessoa vivia, e por esse você ainda não tinha passado.

O luto não vive só na memória: vive também no corpo

Isha diz assim: “Tudo o que acontece na vida de um ser humano não fica registrado só na memória, fica registrado também no corpo.” Por isso há ondas que chegam antes de você pensar em qualquer coisa. Um perfume no elevador, uma música no rádio de outra pessoa, a luz de determinada hora. O corpo reconhece e responde, e só depois a cabeça entende o que aconteceu.

A isso se soma algo que a mente faz e que quase ninguém nomeia. “A mente tem os truques dela nisso, porque começa a lembrar das coisas boas”, diz Isha. No começo isso consola, e com o tempo dói mais: devolve uma versão em que não faltava nada, e contra essa versão o presente sempre perde. Não é que você esteja idealizando alguém. É o jeito como a mente organiza aquilo que não pode mais voltar a olhar.

À dor se soma um relógio, e esse relógio não é do luto

Lá pelo terceiro ou quarto mês costuma aparecer uma segunda carga, e ela não vem da perda: vem da exigência. “Eu já deveria estar melhor.” “Os outros seguiram com a vida deles.” “Não posso continuar falando disso.” Você começa a se medir contra um calendário que ninguém escreveu, e cada dia em que não o cumpre parece uma falha sua.

Isha não é ambígua sobre isso: “A exigência é violência e vai contra a consciência.” E sobre o que se perde também não oferece um consolo rápido: “Na verdade não existe justiça nisso, é apenas o que é.” Um luto não acelera porque você o mede. A única coisa que o relógio consegue é que, além da saudade, você se sinta em falta. Essa segunda carga dá para afrouxar, mesmo que a primeira ainda não.

Sinais de que você está atravessando um luto

  • Uma data qualquer do calendário te desmonta, e você não a tinha visto chegar.

  • Você guarda mensagens, áudios ou fotos que não volta a abrir.

  • Você se percebe contando o tempo: quantas semanas, quantos meses.

  • Um momento de alegria deixa uma sensação estranha, como se você estivesse deixando alguém para trás.

  • Cansa mais disfarçar diante dos outros do que ficar sozinha com o que você sente.

Uma cena que talvez você reconheça

Passaram cinco meses. Você voltou ao trabalho, responde e-mails, até riu no fim de semana. E numa quinta-feira você abre uma gaveta procurando outra coisa e aparece a letra dela num papel qualquer: uma lista de compras, um número anotado. O dia inteiro desaba.

O que desabou não foi o seu progresso. Foi um lugar pelo qual você ainda não tinha passado. Os cinco meses de pé continuam ali e aquela gaveta não os apaga. O luto não avança em linha reta porque a vida que vocês compartilhavam também não estava organizada em linha reta.

A prática: sustentar o dia enquanto a onda passa

  1. 1

    Quando a onda chega, talvez você possa não corrigi-la nem apressá-la: é informação sobre onde esse vínculo vivia, não um retrocesso.

  2. 2

    Você para alguns minutos, com a dor ali. A Unificação não pede postura especial nem silêncio absoluto.

  3. 3

    Você leva a atenção da cabeça ao coração, que é onde esse vínculo continua existindo sem depender da memória.

  4. 4

    Se você se perceber medindo o tempo, pode deixar o relógio de fora e se perguntar do que precisa hoje.

  5. 5

    Dizer o nome dessa pessoa em voz alta, quando der, não te expõe: evitá-lo não a protege e deixa você mais sozinha.

É como o oceano: pode ter ondas na superfície, mas a profundidade continua ali.

Isha Judd

FAQ

Perguntas frequentes

  • O luto não tem prazo, e quem te dá uma data está pedindo algo que não depende de você. Há pessoas que em poucos meses voltam a se sentir dentro da própria vida e outras para quem o segundo ano pesa mais que o primeiro, e nenhuma das duas está fazendo errado. O que costuma mudar não é a intensidade de cada dia, e sim a forma: no começo ocupa todo o espaço e depois chega em ondas, muitas vezes sem aviso. Por isso ajuda menos perguntar quanto falta e mais perguntar do que você precisa hoje. Ir no seu ritmo não é ficar para trás. É o que permite atravessar algo assim sem deixar você mesma de fora.

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